domingo, 10 de janeiro de 2010





















"Deve-se evitar a preguiça, essa sereia enganadora."

(Horácio )


 






















Na mitologia grega as sereias eram criaturas de extraordinária beleza e de uma sensualidade irresistível. Quando cantavam, atraíam os navegantes que não conseguiam pelejar contra seu poder de sedução. Obcecados por aquela melodia sobrenatural, os pilotos arremessavam seus navios contra as rochas da ilha, naufragavam, e as sereias devoravam os tripulantes. Os gregos relatam que apenas dois conseguiram vencer o encanto de inimigas tão terríveis. Orfeu, o deus mitológico da música e da poesia, encontrou um recurso. Quando sua embarcação aproximou-se de onde estavam as sereias, ele salvou seus parceiros, tocando uma música ainda mais doce e envolvente do que aquela que vinha da ilha. A outra solução foi encontrada por Ulisses. O herói da Odisséia não possuía talentos artísticos. Sem dons, sabia que não venceria as sereias. Reconhecido de sua fraqueza e falibilidade, concebeu outro plano. No momento em que sua embarcação começasse a se aproximar da ilha sinistra, mandaria que todos os homens tapassem os ouvidos com cera e que o amarrassem ao mastro do navio. Depois que encarou sua fraqueza e incapacidade de enfrentar as armadilhas das sereias, rumou para a ilha conforme o plano. Do mesmo modo, deu ordem aos tripulantes: mesmo que implorasse para que o soltassem, as cordas deveriam ser apertadas ainda mais. Quando chegou a hora, Ulisses foi seduzido pelas sereias como previra, mas seus marinheiros não o libertaram. Quase louco, pedindo para ser solto, passou incólume pelo perigo. O relato mitológico termina afirmando que as sereias, decepcionadas por haverem sido derrotadas por um simples mortal, afogaram-se no mar. O que salvou Ulisses não foi a percepção de sua superioridade, mas a consciência de sua fragilidade.

Ricardo Gondim














Mostrai-me as anémonas, as medusas e os corais
Do fundo do mar.
Eu nasci há um instante.

Sophia de Mello Andresen



















E os corpos espalhados nas areias
Tremem à passagem das sereias,
As sereias leves de cabelos roxos
Que têm olhos vagos e ausentes
E verdes como os olhos dos videntes.

Navio Naufragado, Sophia de Mello Andresen

O Canto das Sereias























As sereias nadam alegres na Praia do Desejo,
Cantando belas canções de amor ao vento;
Sonhando, ardentes, dele receber um beijo,
Um beijo do Amor, um beijo em pensamento.

O azul claro do céu de súbito invade o mar,
Nos rostos lindos delas um sorriso sensual,
Uma eterna magia que o mundo faz sonhar,
Um doce olhar, um amor belo, especial.

Os navios naufragados jazem abandonados
No fundo do mar, pelo tempo olvidados,
Com os corpos de marinheiros afogados.

Mas o canto delas é um canto de encantar,
É apaixonado, é um canto que faz sonhar,
Elas cantam porque o Amor querem amar.


(josé luís santos)

Balada Do Rei das Sereias






















O rei atirou
Seu anel ao mar
E disse às sereias:
– Ide-o lá buscar,
Que se o não trouxerdes,
Virareis espuma
Das ondas do mar!
Foram as sereias,
Não tardou, voltaram
Com o perdido anel.
Maldito o capricho
De rei tão cruel!
O rei atirou
Grãos de arroz ao mar
E disse às sereias:
– Ide-os lá buscar,
Que se os não trouxerdes,
Virareis espuma
Das ondas do mar!
Foram as sereias
Não tardou, voltaram,
Não faltava um grão.
Maldito o capricho
Do mau coração!
O rei atirou
Sua filha ao mar
E disse às sereias:
– Ide-a lá buscar,
Que se a não trouxerdes,
Virareis espuma
Das ondas do mar!
Foram as sereias...
Quem as viu voltar?...
Não voltaram nunca!
Viraram espuma
Das ondas do mar.

Manuel Bandeira

O Cântico da sereia….










 












Ó cântico das sereias perdidas,
Em torno dos mares salgados,
Brotam corais de cores vivas,
E olhares bem apagados.

Sombra virgem que gela a morte
Olhos vagos
Tristes, pequenos
Sem vida, sem sorte
Noite negra tão breve e vazia
No escuro trazes de volta
O cantar da sereia para, quebrar
O silêncio mudo do meu dia.

José Costa

A Sereia


























O mar,
mestre dos navegantes,
berço de belos romances,
começo e fim de grandes amores,
guardião do farol solitário,
tem a cor imprecisa dos teus olhos
e o estranho brilho da tua pele
morena.

Ah! O mar me traz tantas saudades.
Ah! O mar, o eterno mar.

Teu riso infantil me dizia
o quanto querias
ser minha no mar,
dois corpos nus rolaram na areia
tendo a noite por testemunha,
e o mar que se abriu para nós
esconde o sol
e as estrelas do céu,
afogando as paixões sem piedade.

Ah! O mar, o imenso mar.
Mar que me mata devagar.

O mar,
casa dos marinheiros,
rota dos barcos de pesca,
lar dos pescadores,
amante de Iara,
tem a cor indefinida dos teus olhos
e o mistério dos teus cabelos
molhados.


O mar
cujas ondas tocam-me a alma,
é o mesmo mar que esconde os afogados.
O mar levou o meu coração para bem longe
e me aprisionou em ilhas distantes,
na ilha da Ilusão,
na ilha da Saudade,
na ilha do Amor,
e todas estas ilhas... distantes de ti,
meu amor,
e dos teus olhos indiferentes
cor do mar.

Quanta saudade eu tenho do mar.
Ah! O mar foi feito para os lunáticos.

O mar,
velho contador de histórias,
numa noite escura e fria,
veio até mim e revelou
onde escondeu o meu amor.
Então, eu caminhei pela praia,
enfrentei as ondas,
entrei nas águas
e fui buscar o teu coração, Sereia,
melancolicamente,
no fundo do mar.


Vicente Miranda