
"Rei terrível do mar, vós que tendes as chaves das cataratas do céu e que encerais as águas subterrâneas nas cavernas da terra; rei do
dilúvio e das chuvas da primavera, a vós que abris as nascentes dos rios e das fontes, a vós que ordenais à umidade, que é como o sangue
da terra, de tornar-se seiva das plantas, nós vos adoramos e vos invocamos. A nós, vossas móveis e variáveis criaturas, falai-nos nas
grandes comoções do mar e tremeremos diante de vós; falai-nos também no murmúrio das límpidas águas, e desejaremos o vosso amor. Ó
imensidade na qual vão perder-se todos os rios do ser, que sempre renascem em vós! Ó oceano das perfeições infinitas! Altura que vos
mirais na profundidade; profundidade que exalais na altura, levai-nos à verdadeira vida pela inteligência e pelo amor! Levai-nos à
imortalidade pelo sacrifício, a fim de que sejamos considerados dignos de vos oferecer, um dia, a água, o sangue e as lágrimas, para
remissão dos erros. Amém."
Eu me encontrei no marco do horizonte
Onde as nuvens falam,
Onde os sonhos têm mãos e pés
E o mar é seduzido pelas sereias.
Murilo Mendes
“A voz doce como favo de mel” (Homero)
Ao longo do tempo, as sereias mudaram de forma. Seu primeiro historiador, o rapsodo do livro XII da Odisséia, não conta como eram; para Ovídio, são aves de plumagem avermelhada e rosto de virgem; para Apolônio de Rodes, da metade do corpo para cima são mulheres e da metada para baixo aves marinhas; para o mestre Tirso de Molina (e para a heráldica), “metade mulheres, metade peixes”. Não menos discutível é seu gênero; o dicionário clássico de Lemprière entende que são ninfas, o de Quicherat que são monstros, e o de Grimal que são demônios. Moram numa ilha do poente, perto da ilha de Circe, mas o cadáver de uma delas, Partênope, foi encontrado na Campânia e deu seu nome à famosa cidade que agora se chama Nápoles, e o geográfo Estrabão viu sua sepultura e assistiu aos jogos ginásticos celebrados periodicamente para honrar sua memória.
A Odisséia conta que as sereias atraíam os navegantes e os levavam à ruína, e que Ulisses, para ouvir seu canto e não perecer, tapou os ouvidos dos remadores com cera e ordenou que o amarrassem ao mastro. Para tentá-lo, as sereias lhe ofereceram o conhecimento de todas as coisas do mundo.
Uma tradição recolhida pelo mitólogo Apolodoro em sua Biblioteca narra que Orfeu, a bordo da nave dos argonautas, cantou com mais doçura que as sereias e que estas se jogaram no mar e se transformaram em rochedos, porque sua lei era morrer quando alguém não fosse afetado por seu feitiço. A esfinge também se precipitou das alturas quando adivinharam seu enigma.
BORGES, Jorge Luis. O livro dos seres imaginários.
(Sobre a frase musical de Ivar Frounberg
"Was sagen die Sirenen
als Odysseus vorbei segelte".)
Ninguém jamais ouviu um canto igual
ao canto que te canto
escuta: as ondas e os ventos se calaram e a noite e o mar
só ouvem minha voz - a noite e o mar e tu
marinheiro do mar de rosas verdes:
virás: é um leito de rosas e lençóis de jasmim
mais o lençol de aromas de meu corpo
e dormirás comigo
e os que dormem com deusas
deuses serão - verás
cada arco de minhas curvas
à forma de teu corpo moldaremos - e a pele tua
aprenderá da minha
aroma e maciez e música
e entre garganta e nuca aprenderás
a noite dos que dormem a aurora dos que acordam
sobre os seios das deusas também deuses.
Vem dormir comigo
e comigo
e todas as sereias.
Todas as deusas se entregam
ao amante que um dia possuiu uma deusa
e então todas as fêmeas dos homens
Helenas, Briseidas e a Penélope tua
hão de implorar às Musas - e as Musas a Eros e Afrodite
a volúpia de uma noite contigo.
Não partas!
se partires
as velas de tua nau serão escassas
para enxugar-te as lágrimas - e nunca
nunca mais tocarás a pele das deusas
nunca mais a virilha das fêmeas dos homens
e nunca mais serás um deus
e nunca mais a melodia de uma canção de amor
dos hinos do himeneu
abelhas mortas para sempre irão morar
na pedra do jazigo de cera
de teus ouvidos cegos.
Mas vem
e vem dormir comigo
e comigo
e minhas irmãs e todas
as sereias do mar
as sereias da terra
as sereias dos céus.
Gerardo Mello Mourão
Navegava o poeta em seu barquinho
pelo cibernético oceano calmamente
Navegava o poeta em seu caminho
cortando as ondas sob o sol ardente
Qual Ulisses, ouviu o canto melodioso,
um canto de encanto irresistível.
Foi-se o poeta buscar o canto aprazível,
entre todos os cantos o mais primoroso.
Encontrou o poeta a fonte do canto:
os lábios de sereia em melodia
perdeu-se o poeta nos seus encantos
em cantos de amor em pura sinfonia
encheu-se o mundo de puro espanto
poeta e sereia, a amar em harmonia.
Jorge Linhaça
Mas o poder das sereias é grande: o da poesia aliada ao conhecimento.
Com a flor do nada
Enlaçada em seus cabelos de crepúsculo
Ela tece um silêncio de farol
Longínqua lanterna
Nos altos campos da espera
Aguarda uma visita externa
Nas quimeras dos seus sonhos
Vira um estranho
De capa azul cintilante
Sonhava que era uma sereia
E que falando por notas musicais
Atraía o visitante
Para o seu jardim de sons imaginários
Mas sempre acordava muda
Lembrando do ser das estrelas...
(Gustavo Adonias)
Ao Luar, o mar contemplava!
Ouvi... O canto da Sereia,
Nas águas... Ela dançava...
Fiquei, encantado na areia...
Longa noite ao luar,
Esperando o mistério...
À beira-mar, fiquei a olhar,
Ouvi... O som do Saltério...
Horas passei... Sentado na areia,
A Sereia vi, um pouco, longe!
Lancei... Às águas, grã-teia,
A Sereia... Fugiu, mais pra longe...
Cintilante o seu belo corpo,
Emergido das cristalinas águas...
Esbelto e atraente corpo
Prateado, nas agitadas águas...
Enfeitiça, a dança, da Sereia,
Balança o corpo nas águas...
Ao som do Saltério e Harpa-eólia,
Cantando, vai a Sereia, sem mágoas...
É a Pérola dos Mares!
Surge na crista da onda...
Fascínio em noites de Luares,
Brilhando recostada com pompa...
Senti... Mavioso o seu canto,
Encheu, meu coração d'amor...
Fiquei, perplexo d'encanto,
Irradiei... Um estranho calor!...
Amor, presente de magia...
Sereia leva-me contigo,
Ficarei louco d'alegria
Sem medo do teu perigo!...
Franck P_LavD