quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O canto da sereia


















A imagem estereotipada das sereias é que têm uma doce e melodiosa voz em que concentram todo o seu poder. Com seu canto podem enfeitiçar e fazer enlouquecer os homens, os pássaros, os peixes, o vento e a água. Como os outros elementais da natureza, se comunicam com todos os seres vivos e são capazes de controlar as forças naturais em seu benefício, dentro de certos limites. Seu poder está associado a lenda negra que conta que elas alcançam seu grau máximo nas noites de lua cheia, quando sobem à superfície e com seus cantos chamam as nevoas, refugiando-se nelas para esperarem os barcos que passam próximos de seus refúgios. Outras vezes, seus cantos são destinados aos ouvidos dos marinheiros que caem enfeitiçados e acabam loucos ou mortos.

Oração das Ondinas





















"Rei terrível do mar, vós que tendes as chaves das cataratas do céu e que encerais as águas subterrâneas nas cavernas da terra; rei do
dilúvio e das chuvas da primavera, a vós que abris as nascentes dos rios e das fontes, a vós que ordenais à umidade, que é como o sangue
da terra, de tornar-se seiva das plantas, nós vos adoramos e vos invocamos. A nós, vossas móveis e variáveis criaturas, falai-nos nas
grandes comoções do mar e tremeremos diante de vós; falai-nos também no murmúrio das límpidas águas, e desejaremos o vosso amor. Ó
imensidade na qual vão perder-se todos os rios do ser, que sempre renascem em vós! Ó oceano das perfeições infinitas! Altura que vos
mirais na profundidade; profundidade que exalais na altura, levai-nos à verdadeira vida pela inteligência e pelo amor! Levai-nos à
imortalidade pelo sacrifício, a fim de que sejamos considerados dignos de vos oferecer, um dia, a água, o sangue e as lágrimas, para
remissão dos erros. Amém."

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011





















Eu me encontrei no marco do horizonte
Onde as nuvens falam,
Onde os sonhos têm mãos e pés
E o mar é seduzido pelas sereias.

Murilo Mendes

As sereias: "que a todos os homens encantam"






















“A voz doce como favo de mel” (Homero)

Ao longo do tempo, as sereias mudaram de forma. Seu primeiro historiador, o rapsodo do livro XII da Odisséia, não conta como eram; para Ovídio, são aves de plumagem avermelhada e rosto de virgem; para Apolônio de Rodes, da metade do corpo para cima são mulheres e da metada para baixo aves marinhas; para o mestre Tirso de Molina (e para a heráldica), “metade mulheres, metade peixes”. Não menos discutível é seu gênero; o dicionário clássico de Lemprière entende que são ninfas, o de Quicherat que são monstros, e o de Grimal que são demônios. Moram numa ilha do poente, perto da ilha de Circe, mas o cadáver de uma delas, Partênope, foi encontrado na Campânia e deu seu nome à famosa cidade que agora se chama Nápoles, e o geográfo Estrabão viu sua sepultura e assistiu aos jogos ginásticos celebrados periodicamente para honrar sua memória.

A Odisséia conta que as sereias atraíam os navegantes e os levavam à ruína, e que Ulisses, para ouvir seu canto e não perecer, tapou os ouvidos dos remadores com cera e ordenou que o amarrassem ao mastro. Para tentá-lo, as sereias lhe ofereceram o conhecimento de todas as coisas do mundo.

Uma tradição recolhida pelo mitólogo Apolodoro em sua Biblioteca narra que Orfeu, a bordo da nave dos argonautas, cantou com mais doçura que as sereias e que estas se jogaram no mar e se transformaram em rochedos, porque sua lei era morrer quando alguém não fosse afetado por seu feitiço. A esfinge também se precipitou das alturas quando adivinharam seu enigma.

BORGES, Jorge Luis. O livro dos seres imaginários.

O QUE AS SEREIAS DIZEM A ORFEU NA NOITE DO MAR






















(Sobre a frase musical de Ivar Frounberg
"Was sagen die Sirenen
als Odysseus vorbei segelte".)


Ninguém jamais ouviu um canto igual
ao canto que te canto
escuta: as ondas e os ventos se calaram e a noite e o mar
só ouvem minha voz - a noite e o mar e tu
marinheiro do mar de rosas verdes:

virás: é um leito de rosas e lençóis de jasmim
mais o lençol de aromas de meu corpo
e dormirás comigo
e os que dormem com deusas
deuses serão - verás
cada arco de minhas curvas
à forma de teu corpo moldaremos - e a pele tua
aprenderá da minha
aroma e maciez e música
e entre garganta e nuca aprenderás
a noite dos que dormem a aurora dos que acordam
sobre os seios das deusas também deuses.

Vem dormir comigo
e comigo
e todas as sereias.


Todas as deusas se entregam
ao amante que um dia possuiu uma deusa
e então todas as fêmeas dos homens
Helenas, Briseidas e a Penélope tua
hão de implorar às Musas - e as Musas a Eros e Afrodite
a volúpia de uma noite contigo.


Não partas!
se partires
as velas de tua nau serão escassas
para enxugar-te as lágrimas - e nunca
nunca mais tocarás a pele das deusas
nunca mais a virilha das fêmeas dos homens
e nunca mais serás um deus
e nunca mais a melodia de uma canção de amor
dos hinos do himeneu
abelhas mortas para sempre irão morar
na pedra do jazigo de cera
de teus ouvidos cegos.


Mas vem
e vem dormir comigo
e comigo
e minhas irmãs e todas
as sereias do mar
as sereias da terra
as sereias dos céus.

Gerardo Mello Mourão

O poeta e a sereia





















Navegava o poeta em seu barquinho
pelo cibernético oceano calmamente
Navegava o poeta em seu caminho
cortando as ondas sob o sol ardente

Qual Ulisses, ouviu o canto melodioso,
um canto de encanto irresistível.
Foi-se o poeta buscar o canto aprazível,
entre todos os cantos o mais primoroso.

Encontrou o poeta a fonte do canto:
os lábios de sereia em melodia
perdeu-se o poeta nos seus encantos

em cantos de amor em pura sinfonia
encheu-se o mundo de puro espanto
poeta e sereia, a amar em harmonia.

Jorge Linhaça










 












Mas o poder das sereias é grande: o da poesia aliada ao conhecimento.

O silêncio da Sereia





















Com a flor do nada
Enlaçada em seus cabelos de crepúsculo
Ela tece um silêncio de farol
Longínqua lanterna
Nos altos campos da espera
Aguarda uma visita externa
Nas quimeras dos seus sonhos
Vira um estranho
De capa azul cintilante
Sonhava que era uma sereia
E que falando por notas musicais
Atraía o visitante
Para o seu jardim de sons imaginários
Mas sempre acordava muda
Lembrando do ser das estrelas...

(Gustavo Adonias)