Pois há menos peixinhos a nadar no mar
do que os beijinhos que darei na sua boca...
A verdadeira estória da sereiazinha é diferente da contada pela Disney. A estória que Hans Christian Andersen criou é a estória de uma sereia que sonhava em ter pernas. Suas irmãs a alertavam que isso lhes seria fatal, pois estaria terminantemente proibida de falar. Caso falasse,ela e todas as outras virariam espuma do mar.
Passou-se o tempo e ocorreu um naufrágio. O príncipe por quem a sereiazinha suspirava, se afogava em suas águas e ela, lutando contra o mar tempestuoso, o salvou. Colocou-o na praia e voltou para o mar. Pediu então ela, ao deus Netuno, que lhe concedesse o desejo de se tornar uma mulher , garantindo-lhe o silêncio eterno em troca. E o desejo lhe foi concedido.
O príncipe sem nada saber conheceu-a num passeio pela praia. E, por ela ser tão bela e silenciosa, isso lhe agradou e ele a levou para o castelo.
Passaram-se alguns meses e os preparativos do casamento do príncipe se iniciaram. A sereiazinha estava extremamente feliz em sua companhia, quando ele lhe conta que irá se casar com a princesa do reino ao lado, sem mesmo amá-la mas, pelo fato dela ter lhe salvo a vida num naufrágio. A sereiazinha desesperou-se e queria lhe dizer que tinha sido ela a sua salvadora e como ele não a compreeu, ela lhe gritou a verdade. Neste instante, ela e todas as sereias do mar se transformaram em espuma do mar.
Praia de vento sossegado
Com ondas que dormem na areia,
Pescador sonha com a sereia
Tendo o corpo repousado
Na proa da barca acanhada.
Ela, na água, a cauda meneia,
Num chamado e ele a nomeia:
- Mulher – sempre desejada.
Numa dança que é um mergulho,
Entoa nostálgico canto feiticeiro
Que será o som derradeiro,
Um suave doce marulho
Que ouvirá o pescador
Antes de se lançar ao mar
Perdido de tanto amar
A visão que traz a dor.
Desperta assustado a lembrar
O incrível sonho momentâneo,
Virou o remo instantâneo
Partindo para encontrar
O amor real que em terra deixou
Quando pela madrugada partiu
Com terno beijo se despediu
Da morena que à espera ficou.
Maria Hilda de J. Alão
Sentado à beira mar, do alto do mais belo penhasco que há na Terra,
Enquanto vivo lembranças de eras distantes que não voltarão jamais,
Ouço o canto da sereia trazido pela onda azul do mar.
Sob o encantamento inevitável, ébrio do canto
Deslizo docemente sobre as camadas de ar
E lenta, magicamente pouso sereno na areia quente.
Desço o penhasco portanto; troco-o pela areia do mar.
Com o rosto ferido pela areia cruel,
Ainda sofrendo as lembranças daquela que se foi para sempre,
Meu ser frágil e cansado repentinamente mergulha
Numa onda doce, pura, de felicidade infinita.
E voando, vai pra longe a saudade que sinto dela.
O canto da sereia azul arranca de mim a última gota de sofrimento,
Das lembranças daquela que vive hoje entre as hostes celestiais.
Mas vejam! O que é esse brilho intenso que emana do tridente do pai?
Que luz é essa que fere tão profundamente os céus azuis?
É um relâmpago que corta o céu e interrompe o canto da sereia azul.
Cessa o canto, evapora-se o bem virtual e vem a dor real.
Meu mundo de sofrimento reconstrói-se.
Minha alma volta e chora de saudades daquela que não virá jamais.
Marinheiros de todas as eras: cuidai-vos.
O sofrimento extinto pelo canto da sereia,
Abre o vazio para o sofrimento maior que virá depois.
Pobre de nós e de todos aqueles que fincam suas estacas
Nos sons vazios da sereia azul da cor do mar!
Paulo Bedaque
A imagem estereotipada das sereias é que têm uma doce e melodiosa voz em que concentram todo o seu poder. Com seu canto podem enfeitiçar e fazer enlouquecer os homens, os pássaros, os peixes, o vento e a água. Como os outros elementais da natureza, se comunicam com todos os seres vivos e são capazes de controlar as forças naturais em seu benefício, dentro de certos limites. Seu poder está associado a lenda negra que conta que elas alcançam seu grau máximo nas noites de lua cheia, quando sobem à superfície e com seus cantos chamam as nevoas, refugiando-se nelas para esperarem os barcos que passam próximos de seus refúgios. Outras vezes, seus cantos são destinados aos ouvidos dos marinheiros que caem enfeitiçados e acabam loucos ou mortos.

"Rei terrível do mar, vós que tendes as chaves das cataratas do céu e que encerais as águas subterrâneas nas cavernas da terra; rei do
dilúvio e das chuvas da primavera, a vós que abris as nascentes dos rios e das fontes, a vós que ordenais à umidade, que é como o sangue
da terra, de tornar-se seiva das plantas, nós vos adoramos e vos invocamos. A nós, vossas móveis e variáveis criaturas, falai-nos nas
grandes comoções do mar e tremeremos diante de vós; falai-nos também no murmúrio das límpidas águas, e desejaremos o vosso amor. Ó
imensidade na qual vão perder-se todos os rios do ser, que sempre renascem em vós! Ó oceano das perfeições infinitas! Altura que vos
mirais na profundidade; profundidade que exalais na altura, levai-nos à verdadeira vida pela inteligência e pelo amor! Levai-nos à
imortalidade pelo sacrifício, a fim de que sejamos considerados dignos de vos oferecer, um dia, a água, o sangue e as lágrimas, para
remissão dos erros. Amém."
Eu me encontrei no marco do horizonte
Onde as nuvens falam,
Onde os sonhos têm mãos e pés
E o mar é seduzido pelas sereias.
Murilo Mendes
“A voz doce como favo de mel” (Homero)
Ao longo do tempo, as sereias mudaram de forma. Seu primeiro historiador, o rapsodo do livro XII da Odisséia, não conta como eram; para Ovídio, são aves de plumagem avermelhada e rosto de virgem; para Apolônio de Rodes, da metade do corpo para cima são mulheres e da metada para baixo aves marinhas; para o mestre Tirso de Molina (e para a heráldica), “metade mulheres, metade peixes”. Não menos discutível é seu gênero; o dicionário clássico de Lemprière entende que são ninfas, o de Quicherat que são monstros, e o de Grimal que são demônios. Moram numa ilha do poente, perto da ilha de Circe, mas o cadáver de uma delas, Partênope, foi encontrado na Campânia e deu seu nome à famosa cidade que agora se chama Nápoles, e o geográfo Estrabão viu sua sepultura e assistiu aos jogos ginásticos celebrados periodicamente para honrar sua memória.
A Odisséia conta que as sereias atraíam os navegantes e os levavam à ruína, e que Ulisses, para ouvir seu canto e não perecer, tapou os ouvidos dos remadores com cera e ordenou que o amarrassem ao mastro. Para tentá-lo, as sereias lhe ofereceram o conhecimento de todas as coisas do mundo.
Uma tradição recolhida pelo mitólogo Apolodoro em sua Biblioteca narra que Orfeu, a bordo da nave dos argonautas, cantou com mais doçura que as sereias e que estas se jogaram no mar e se transformaram em rochedos, porque sua lei era morrer quando alguém não fosse afetado por seu feitiço. A esfinge também se precipitou das alturas quando adivinharam seu enigma.
BORGES, Jorge Luis. O livro dos seres imaginários.